Enquanto vivi no Algarve, adquiri, de um modo natural e sem o saber, um sentimento de Sul bastante estruturado, e por me ser óbvio, nunca o questionei. Era tudo muito claro. O Algarve está virado a sul, como o mar e o Sol estão a sul. Na praia, a toalha era posta virada para o mar, não que fosse pelo mar, mas porque de frente para o mar estava também o Sol. E assim, de uma forma natural e confortável, eu e a toalha estávamos sempre, na grande parte do dia, mais ângulo, menos ângulo, virados para o mar, para o Sul e para o Sol. Olhando o mar à frente e o limite limitado da linha do horizonte, tinha presente que para além dessa linha, se fosse mais ou menos a direito ia dar a Marrocos. À noite, em dias de boas condições para a pesca à lula, via-se ao longo da costa inúmeras luzinhas dos barcos à pesca, e dizia-se, com muito humor, que era a auto-estrada para Marrocos. Quem cresceu no litoral oeste, terá no seu imaginário que, se for sempre em frente, irá dar à América. No entanto, a distância é enorme e a fantasia encontrará pelo caminho muito oceano por onde se fixar.
Ao deslocar-me para Lisboa, com Portugal a sul e a norte, e o mar a oeste, percebi ao longo dos anos que o meu mar de infância, trazia-me não só o imaginário de um outro país, mas sobretudo, de um outro continente, totalmente estranho e diferente. Tão vasto como o oceano a oeste.
Apesar da proximidade, nunca fui a Marrocos, e nunca desmistifiquei o meu Sul.
Coincidências da vida, encontro-me novamente no extremo sul de outro país. Em frente à minha baía, olho todos os dias uma muito pequenina ilha, sem ninguém e apenas com uma ruína. Ninguém lá vai, e se vai consegue-o a nado com a maré baixa.
No mar, à noite, vê-se as luzes dos cargueiros. Fala-se dos aviões que chegam e que partem. Portugal. Dakar. Angola.
O Sul da minha infância mudou.